11 julho, 2015

Unknown Mortal Orchestra - Multi-Love (2015)

Nota: 7,4







Eduardo Kapp





Fico tentando entender como funciona uma mente humana que compõe as melodias mais pop em meio a tanto isolamento e solidão. Quero dizer, como é que quase 2 anos trancado numa garagem podem te fazer ter qualquer ideia musical que não soe como algo absurdo? Bom, não podem. As influências tavam lá, o contexto e a vontade também, mas aparentemente isso não foi o bastante pra tirar uma das características principais do Neo-Zelandês Ruban Nielson: O som exótico e estranho.

Na verdade, nos últimos lançamentos não foi muito diferente. Tem várias ideias pop que, caso produzidas de forma diferente poderiam ser, sei lá, um baita hit ou algo que o valha. Secret Xtians, Little Blue House, How Can U Luv Me e tantas outras. Felizmente ou não, Ruban prefere torcer essas ideias, destruir o caminho linear e acessível, encher de camadas e texturas, tocar uns solos doidos sem palheta, deixar tudo soando meio explosivo e raspy.

A temática dominante aqui é um bocado óbvia. O nome do disco e tudo... Enfim, as linhas celebram uma curta experiência de Poliamor que o Ruban e sua esposa tiveram com uma terceira pessoa. "Multi Love has got me on my knees, we were one, and then we got three". Embora não seja muito aparente, Ruban é pai de 2 filhos e é casado e tudo, então dá pra imaginar o quão doido e intenso deve ter sido essa experiência.

Não sei, tem toda essa inclinação pra algo mais groovy, funk-y e essa coisa toda. Gostei bastante dessa direção, mas por alguma razão, as músicas parecem não chegar a lugar nenhum. "Like Acid Rain" é explosiva, tem várias partes boas, mas parece algo completamente sem razão de existir. É o famigerado "tá, eaí?" que tu sente depois de ouvir. Dá pra sentir isso em quase todas as músicas, na verdade. Poucas se salvam.

Não dá pra deixar de dizer, no entanto, que a produção continua muito criativa. A qualquer instante, são várias camadas cuidadosamente organizadas. Extremamente exótico. "Can't Keep Checking My Phone" te leva pra outros mundos, definitivamente. Tem muita coisa acontecendo ao mesmo tempo. De novo, isso parece ser a melhor e a pior coisa por aqui. Se nessa faixa esse é o ponto positivo, em outras como "Stage or Screen" parece meio.. overproduced (vide aquela quebra de continuidade sem noção ali pelo finalzinho da música). Entende?

Bom, mesmo tendo essas melodias confusas, felizes e tudo (algo como um álbum do Prince produzido pelo Wayne Coyne), as letras são muito intensas. Muito mais que os anteriores, aparentemente. O self-titled e o "II" soam mais como alguém divagando sobre sentimentos estranhos e distantes, enquanto no Multi-Love é muito mais concreto e direto. O próprio Ruban comentou em várias entrevistas que essa relação toda foi praticamente a coisa mais marcante de toda sua vida.

E eu gosto bastante dessas coisas estranhas e experimentais. O problema é que o Ruban não soube tornar essas experimentações lá tão interessantes como tinha conseguido anteriormente. No duro, as melhores partes da coisa toda são onde, aparentemente, ninguém tá tentando soar como nada e só tá deixando acontecer: leia-se "Necessary Evil" (com a parte dos metais sendo tocada pelo próprio pai do Ruban) e principalmente "Puzzles". "Puzzles" é definitivamente o ponto alto do disco. Parece algo com vida própria, que nem deveria fazer parte desse disco. E claro: os teclados tipo-supertramp da faixa título, que é genial por si só.

Onde ouvir: https://www.youtube.com/watch?v=ByYvTra8zWw&list=PLAnADJJTXDSq45D-a4pv_65CwIEErpXsf (só parte das músicas estão no youtube :/ )

07 julho, 2015

Esteban - Saca La Muerte De Tu Vida (2015)






Por Matheus Donay







Saca a morte da tua vida.

O comentário que circulava entre os amigos mais ansiosos pelo lançamento do álbum era massivamente um. Um desejo, aliás: tomara que o cara não abandone aquela melancolia que fez a gente gostar afu o primeiro álbum. Se o debut Adiós, Esteban! era uma espécie de Chinese Democracy do cara, até que a burocracia pra lançar o SLMDTV foi tranquila.

A ideia que eu tenho é que o Tavares, inteligentemente eu diria, se apoia muito na estética em seus trabalhos. Olhe para o nome do projeto, o nome dos discos (em espanhol) e a sua imagem de quem faz música latina e pampeana (o que não é mentira, mas não abraço como verdade integral). O cara nunca poupa esforços pra dizer que "Minhas influências são Fito, Charly García..." enfim, os ícones. 

Duas músicas levam a pecha de Chacarera no álbum (Chacarera de Saudade e Chacarera 2). Aliás, duas versões de uma mesma música (a segunda é cantada pelo Pirisca Grecco, cantor tradicionalista gaúcho). Outra leva no nome Tango (Tango Novo), e curiosamente nenhuma das citadas defende com fidelidade o gênero da referência. Fica a brecha pra corneta: LA COPA SE MIRA Y NO SE TOCA,TABARES. Fora essas coisinhas distorcidas de folclore eu arrisco dizer que são as melhores do disco, heheh.

Libertad, libertad! Uma coisa que ficava bem perceptível em entrevistas era que o que incomodava muito a carreira do cara era o mercado. Gravadora, liberdade pra criar, aquele mala do Rick Bonadio se apropriando do trabalho alheio, uma penca de entraves. Parece que desta vez a coisa fluiu, liberdade total pra criar e tudo más. Ficou meio eclético até, quando se encontram canções de tendência regionalista e outras que lembram os tempos da Abril, sua primeira banda.

Sempre achei a lírica do Esteban muito apurada, cheia de sacadas, joguinho de fonemas e tal. O disco conta com isso, mas o que me chama atenção é a letra de Me Sinto Humano. Me lembra muito meus poemas de ensino médio heheheh. "Me sinto humano / Quando tenho medo e fico congelado / Quando estou feliz por estar alienado / Quando o Grêmio toma um gol do Colorado / A dez minutos do final". Com direito a narração de gol do clube del pueblo no final.

Pra não perder o trem das ALEATORIEDADES do álbum, um dos ápices pra mim é na transição pra voz da Tay Galega em Tango Novo, quando rola um teclado que se um pouco mais trabalho vira uma psicodelia COGUMÉLICA do Youth Lagoon

Em time que tá ganhando não se mexe, e não são poucas as músicas do Saca La Muerte de Tu Vida que lembram as canções do Adiós. Janeiro, por exemplo, tem linhas de acordeon e guitarras bem leves, acompanhadas de um vocal arrastado y doloroso. É o mesmo esquema de Eu sei, você esqueceu, faixa do primeiro disco.

Sclmdtv é o sofrimento do homem de alpargata. É um embrulho de medicamentos pra dor de cabeça, drogas lícitas e uma espécie trovadorismo que não é xucro, mas bonito. Segue a linha do primeiro álbum, não decepciona, se arrasta às vezes, mas prende. O resto você descobre sozinho, ouvindo aqui: https://www.youtube.com/watch?v=y5zPDSalzt8

12 junho, 2015

American Football - American Football (1999)









Michel Peixoto



But that's life, so social..

O American Football com certeza é uma das bandas mais influentes do emo (e com menor vida também), mas pra falar disso, é necessário voltar um pouco no tempo. Pra começo de história, Mike Kinsella, vocalista e guitarrista da banda, é uma das mais importantes figuras da chamada "segunda geração" do emo. No fim da década de oitenta, ele e seu irmão Tim Kinsella, influenciados por bandas como Rites Of Spring, Embrace e algumas características de outros estilos musicais como o jazz, formaram o Cap'n Jazz. A banda gravou alguns singles, um ep e um álbum antes de seu fim e depois cada integrante criou seu próprio projeto, sendo o de Mike Kinsella o American Football. O Cap'n Jazz, por ter dado vida a muitas outras bandas e a tantas diferenças sonoras que passaram a existir dentro da cena, tem um papel tão importante quanto ao que caras como Ian MacKaye e Guy Picciotto tiveram no começo de tudo.

Relacionamentos frustrados, incertezas, despedidas e reflexões em atitudes pessoais são o prato principal das letras do disco. Verdade seja dita, Mike Kinsella é um contador de histórias, isso é notável tanto no seu trabalho com o American Football quanto no seu projeto solo, o Owen, onde suas letras aparecem sempre com muitas histórias/experiências pessoais e citações de seus autores e obras literárias favoritas.

O álbum começa já com a polirrítimica "Never Meant", que além de ser a música mais marcante da banda, é um ótimo jeito de começar, pois é capaz de mostrar o que vamos encontrar durante o resto do álbum: dinâmicas, afinações nada convencionais, o timbre de voz agudo que o Mike Kinsella tinha na época com seus vinte e dois anos e todas as ambientações/atmosferas e situações que esse álbum é capaz de te colocar.

"I'm thinking about...leaving" é o primeiro verso de "The Summer Ends", uma das músicas mais tristes deste álbum, onde desde a primeira nota da guitarra até o último verso te ambientam em um cenário de despedida. Ao ouvir essa música pela primeira vez, achei os versos bem bobos e simples. Só se tornou impactante de verdade depois de escutar mais algumas vezes e ver que cada elemento presente (as guitarras que ficam indo e vindo em algumas partes, os versos e até mesmo o trompete da introdução) de alguma maneira me ambienta na situação da música.

"Honestly" é uma das minhas favoritas do disco e já entra com um riff marcante que se estende durante a primeira parte da música. Na segunda parte, a banda faz uma progressão instrumental em cima de uma variação do acorde aberto da afinação e ao longo dela, mais guitarras vão aparecendo e se somando a bateria que vai acompanhando e fazendo algumas mudanças até o final onde aos poucos todos os instrumentos vão se despedindo em um fade out.

Depois vem "For Sure", que logo de cara, tem um trompete que se junta ao baixo e faz com que a música navegue dentro da sua tonalidade enquanto a guitarra faz algumas variações do riff principal até o final. É uma das mais curtas e diretas do disco. "You Know I Should Be Leaving Soon" pra mim sempre vai ser uma música estranha, interessante, e ao mesmo tempo de transição. Por algum motivo que eu nunca vou entender, essa música me deixa um pouco apreensivo, com dúvida sobre alguma coisa que esteja acontecendo ou que vai acontecer. A bateria com a levada jazz é o ponto forte da música, que muda um pouco dali e quebra um pouco de acolá. Se fosse pra dividir este disco em duas partes, seria depois dessa música, é a partir do final dela que as coisas se agitam um pouco.

"But The Regrets Are Killing Me" é um pouco diferente das demais do disco por não ter partes com tanta progressão e uma maior variedade dentro de sua estrutura devido ao seu instrumental mudar constantemente. Um exemplo disso são as guitarras que mudam pelo menos três vezes na música, sempre trazendo uma nova linha/passagem ou riff. Assim como "For Sure", também é uma música direta, mas com um instrumental muito mais técnico. Fazendo uma comparação, essa música me remete muito ao som que o This Town Needs Guns(ou TTNG, como quiserem) faria um bom tempo depois.

O que mais me chama atenção em "I'll See You When We're Not Both So Emotional" é a presença maior do baixo na mix (o que não tinha acontecido até então) e este fazendo junto da bateria um groove até mesmo dançante (depois deste turbilhão de frustração, solidão e despedidas, ainda da pra dançar?). Outro ponto interessante é a bateria, onde a influência jazz é ainda mais nítida e traz quiçá as levadas mais complicadas do disco inteiro.

Música mais longa do disco, "Stay Home" traz no título um ótimo conselho, não? A entrada das guitarras, preenchendo os espaços deixados por uma ou por outra, a "abertura" da bateria, onde no começo é possível somente ouvir um som seco e oco na mix que depois vai se tornando mais claro junto com o baixo. Aliado a tudo isso, aparecem versos curtos, mas que são suficientes pra te fazer refletir bastante sobre o que o título diz.

Acho que "The One With The Wurlitzer" é um final justo para o disco, já que nela aparecem todas as características apresentadas anteriormente em outras faixas. A música começa com um fade in trazendo primeiramente o wurlitzer em um tema principal e depois a presença da bateria, baixo, guitarras e um trompete na mix. À medida que a música anda, o wurlitzer segue seu tema, as guitarras se juntam aos poucos e a bateria leva tudo isso com o baixo, criando um clima de despedida e faz parecer que tem alguém te dizendo um “tchau, até breve” com um sorriso no rosto.

Onde escutar: https://www.youtube.com/watch?v=MqRNSwXQUwA aqui tem o re-lançamento do álbum em versão deluxe que a polyvinyl records fez ano passado que além das músicas originais, essa versão traz gravações velhas de ensaios da banda e uma música inédita, "The 7's".

Caso alguém ficou em curioso/curiosa sobre as outras bandas que surgiram após o fim do Cap'n Jazz, deixo aqui algumas recomendações.


11 junho, 2015

Psychic TV - A Pagan Day (1984)

Nota: 7,3






Eduardo Kapp




Pra um grupo que era basicamente pedaços que restaram da formação do Throbbing Gristle, eles conseguiram influenciar muita gente e inovar afu, considerando a época e tudo. Digo, não é todo dia que tu cruza por um trabalho de early-industrial-early-70's. Esses caras são um bocado complexos, a banda teve várias fases e várias lideranças e etc etc.

Pulando pra parte interessante: esse é um dos discos da fase inicial, onde o mastermind ainda era o Alex Fergusson. Um músico bastante underground, tocava tanto nesses grupos de acid house experimental quanto em coisas mais punk e tudo. Ele e o famigerado Genesis P-Orridge montaram e gravaram todo o álbum, praticamente. Tudo meio de garagem, num mero 4-track.

Foram feitas apenas 999 cópias da distribuição original do álbum. Tem uns tarados colecionadores que pagam alto simplesmente pela capa da edição original (o re-release tem uma outra capa). Definitivamente, é um lance muito mistério/nonsense que se formou em volta dessa banda e especificamente desse disco.

Embora hoje em dia tu escute isso e consiga fazer algumas relações ou comparações, imagino que na época tenha sido algo completamente único. As composições soam como uma mistura de alguém praticando as primeiras lições de um instrumento qualquer enquanto uma bateria eletrônica se adapta a mesma e alguém mais entendido vai fazendo a coisa efervescer.

"Cadaques" é exatamente isso. O fato é que mesmo sendo muito estranho de primeira, é aquela coisa que te deixa interessado. E do nada tu se vê num daqueles morros estilo o finalzinho do filme "Harold and Maude", numa tarde de terça, provavelmente reconhecendo a voz de alguém que tu não conhece passando por perto. Ao menos essa é a vibe de "We kiss", "Cold Steel". Soa como a Nico no "Chelsea Girl", só que mais lo-fi, eletrônico e dessa vez realmente afim de cantar.

Bastante coisa ambiente, intimidadora (eu ia falar agressiva-passiva mas eu não suporto essa expressão) e tudo. É aquela coisa que se tu conseguiu chegar numa zona de conforto ouvindo é porque tu caiu na nóia que eles tão propondo. Tem que se deixar levar.

O problema mora aí mesmo: se tu não conseguir se deixar levar. Começa a ficar um bocado irritante, dependendo do contexto que tu se coloca pra ouvir. Aí sim, eles parecem um bando de cretinos fazendo barulho. Acho que isso é a coisa mais interessante em artistas fora do eixo/padrões que nossos ouvidos tão acostumados, tu fica realmente intimidado com o negócio. É como tentar entender uma conversa entre estrangeiros (que tu não conhece a língua, obviamente).

Essa coisa é simplesmente um clássico da banda, que é uma baita influência pra cena early-industrial e eletrônica da época. É essencial.

Onde ouvir: https://www.youtube.com/watch?v=4id3GVWPYFE (não tem o álbum inteiro online :/)

06 junho, 2015

Apanhador Só @Theatro 13 de Maio


Se tem um coisa que acredito que dispense uma prévia discussão é que o (ou a, como preferir) Apanhador Só lançou em 2013 um baita disco, no caso, o "Antes que tu conte outra". Pois bem, a última aparição da banda por Santa Maria havia sido 3 anos atrás, na rua, em formato diferente do show plugado e com formação diferente. No Theatro, dividiam o espaço os 3 membros fixos e 2 "músicos de apoio", se é que se chama assim. Enfim... a espera pelo show era visivelmente grande. Até mesmo o Alexandre brincou: "estamos fazendo show de lançamento no encerramento da turnê (rsrs)".

Aos gritos e prantos de ansiedade, a casa lotada viu as cortinas se abrirem aos ruídos de Mordido, seguido de um bloco de canções do AQTCO. Curiosamente, o show parecia divido em blocos, quando surgiram alguns clássicos em sequência do primeiro álbum. Peixeiro, Prédio, etc. E aí depois tudo virou uma grande festa onde já não se havia mais critério entre álbuns e até o ep Paraquedas teve espaço com a música homônima e Salão de Festas. Em meio a uma reciprocidade muito avante, me chamou atenção as versões modificadas de algumas músicas pro show ao vivo, como variações de riffs e solos acrescidos, rolou isso com Maria Augusta e algumas outras das quais não me lembro o nome agora. 

Se a logística de um teatro já permite uma certa proximidade entra o artista e o expectador, a coisa toda se vale mais ainda quando os caras desplugam todos os intrumentos pra sentar à beira do palco pra cantar Na Ponta do Pés, uma legítima quebra de protocolo que pode ser conferida neste vídeo. Mas o grande catarse da noite e que pra mim tem sido um diferencial da Apanhador pra qualquer outra banda é a ideia de que o fã também é parte da banda. Foi quando se pediu voluntários pra subir no palco pra grande anarquia que estava por vir em Nado. Latifúndios de alegria nos rostos que ali seguravam entre outras coisas, panelas, colheres, brinquedinhos e o escambau. Quem ficou sentado ainda era intimado pra fazer barulho com o que tivesse em mãos, e dalí saíam trovões de molhos de chaves. Cacarejadas sem limites, situação periclitante, um semi-caos instituído.

Que todos mereciam uma acústica como a do Theatro isso nem se discute. O grande x da questão é que uma hora as cadeiras pareciam ter formigueiros, o que fez com que todos se levantassem em Maria Augusta, já na reta final. Maria Augusta e Nescafé foram tocadas a pedidos, que eu me lembre. Satisfação garantida após cerca de 1h20min de show e pedidos atendidos, a banda se despede esperando o bis, que não foi pedido dadas as circunstâncias já citadas, imagino eu. Volta o Fernão das cortinas e sopra um "galera, peçam mais uma". Aos gritos de "mais um" voltam os guris pra tocar Vila do Meio-dia e terminar o show.

foto: Luciéli Raminelli
Musicalmente o negócio saiu como se esperava. O que de algum modo me surpreendeu foi a energia que a banda estava, ainda levando em conta que os caras tinham instrumentos roubados horas antes do show. Harmonia pura, e detalhe: o baterista (que agora me foge o nome) exalava oceanos de simpatia ao tocar quase que todas as músicas sorrindo e dançando. Até mesmo as canções mais sombrias e sérias do AQTCO tinham brechas de felicidade. Eu que esperava caras fechadas como vi em muitos vídeos de apresentações da turnê. O próprio clipe de Mordido não me deixa mentir.

E foi isso. Após o recado de "nos encontrem na banquinha ali depois pra trocar uma ideia" a banda se despediu prometendo voltar num futuro não muito longe com a turnê Na Sala de Estar. Sem muita delonga: show que fez valer a pena perder a rodada do futebol de quarta à noite.

Matheus Donay

28 maio, 2015

Deerhunter - Halcyon Digest (2010)

Nota: 9,5







Nychollas Cardozo




Bem, venho aqui falar-vos sobre algo que considero não só um disco, mas uma bela e conceituada obra de arte. Preciso mencionar, obviamente, que sou suspeito em falar dessa banda, e principalmente desse trabalho em específico, mas não posso deixar de tecer as percepções e opiniões que tenho sobre ele. Falamos aqui de Halcyon Digest, o quinto álbum do conjunto, lançado em 2011 pela 4AD (a mesma gravadora de Ariel Pink, Animal Collective, entre outros).

O Deerhunter surgiu por meados de 2001, em Atlanta, Georgia; tendo como líder Bradford Cox, o cara alto, magricelo e estranho que infelizmente tem síndrome de Marfan. A banda se formou com a ideia de unir a “propulsão do rock de garagem” com a música ambiente, assim como já se auto descreveram “ambient punk”. Eles carregam uma enorme gama de influências, e Cox é o tipo de pessoa que vai até a loja de discos e ouve o que aparecer a sua frente, sabendo apreciar e absorver muita coisa.

Mas enfim, falando do álbum: ele se abre com “Earthquake”, uma das faixas mais experimentais do conjunto. Algo que flerta com a vanguarda pré-setentista do Velvet Underground, e invoca as experimentações ambiente feitas pelo Slowdive, em seu último disco, Pygmalion. A letra trata de uma personagem que acordou situada em um terremoto e é questionando sobre as coisas que poderiam estar passando pela sua cabeça naquele momento recém-desperto, em meio ao caos, ainda em processo de assimilação. O que pode explicar a lentidão cadenciada da música e o aspecto descritivo da cena. Com essa abertura, não se pode deixar de lado a produção e mixagem do disco, que englobam todo o restante. São muitas camadas encharcadas de efeitos, e se pudéssemos criar uma imagem sinestésica nesse aspecto, daria para imaginar um cenário assim: um dia húmido na serra gaúcha, aquele dia no qual a serração desce, atingindo os vidros dos carros e deixando-os foscos. Essas “camadas” sendo a linha tênue entre a água condensando em gotas nos vidros e a neblina, ainda pairando pelo ar gelado em meio às montanhas crepusculares. Tudo isso em um esquema de cores preto e branco, como mostrado em toda a arte do disco físico, além das fotos do encarte.

“Sailing” traz o lado mais folk à tona, a canção em si é só voz e guitarra, e mostra uma razão existencial, transparecendo isso do jeito mais confortável e inteligível possível, utilizando ruídos e efeitos que lembram algo como o vento batendo nas velas de um veleiro que flutua na calmaria marítima. Do mesmo modo que em “Fountains Stairs”, composição do guitarrista Lockett Pundt, a sensação é de que você está ouvindo o outono e a primavera ao pé do seu ouvido. Lembrando que o Deerhunter tem um pouco disso: letras de autoajuda, o que pode parecer meio idiota, mas na realidade nada mais é do que o diálogo do músico com o ouvinte sobre as dificuldades diárias e mundanas de qualquer pessoa. “Desire Lines” também retrata essa situação, e falaremos dela logo mais...
Um aspecto muito importante desse disco são as memórias: o quão ele puxa situações da infância e juventude. A faixa que mais evidencia isso é “Memory Boy”, que conta com takes de gaita e um arranjo de cordas bem destacado. Ela nos leva a um insight do “protagonista”, que de um verso para outro volta à infância/adolescência, onde se encontra em uma situação de mudança. Supõe-se que sua família estaria trocando de lar, o que é mostrado pela repetição de “It’s not a house anymore” ou “I see you leaving/Don’t forget your TV”. O narrador acaba retomando os bons tempos em que viveu naquele lugar, e termina por relatar que a mudança teve um impacto psicológico. Algo parecido ocorre em “Don’t Cry”, que transparece um diálogo de pai para filho em suas estrofes, ou pode ser que seja Bradford dando conselhos para si mesmo quando mais jovem.

“Desire Lines”, single do disco e também escrita por Pundt, tem em si aquela função da qual havia dito anteriormente, bem ressaltada no último verso: “Well, everyday do what you can/and if you let them turn you’round/whatever goes up must come down”. A composição trata sobre as dificuldades existentes entre a juventude e a vida adulta, representando as sensações que o indivíduo pode passar enfrentando a “vida real” e os caminhos que ela pode seguir. Há também a ideia de que as tais desire lines são aquelas estradas que se desviam do concreto e são formadas na terra pelo excesso de passagens, desenhando um caminho alternativo. O mais interessante dessa música é que após o fim do último verso e de sua estruturação normal, ela passa a se tornar um improviso. Sim, a boa e velha jam, repetitiva e repleta de efeitos, dando aquela vibe crua a garageira, apesar de refinada e bem produzida. Essa é a fatia de maior deleite da música e da banda também, os improvisos longos são característicos deles.

A excelente, e também single, “Helicopter” é uma das peças sonoras mais originais e palpáveis. Quando que algo tão experimental pode se tornar grudento (no bom sentido) e pop? Não há como explicar, mas é nessa música que Cox mostra sua genialidade, e também é onde aquela descrição da produção mais se encaixa. Os delays e reverbs dos acordes dedilhados parecem ricochetear às margens de um lago sereno e monótono. O refrão e os versos são os mais bem marcados, e a letra tem sua explicação nas entranhas do disco físico, que conta a história real de um ator pornô Russo que foi envolvido em tráfico humano. É interessante também o contraste criado com a bela e delicada canção e o tema trash tratado pela mesma.

Por fim, o álbum termina com a longa “He Would Have Laughed”. Também uma das mais belas composições presentes, e que de certa forma resume bem aquela ideia principal do disco: da nostalgia, da mudança, das memórias, tudo da vida que vai se tornando cada vez mais obscuro e termina com o bater das botas. Sim, é bem provável que Cox se refira a isso em seus versos.
Acho que não existem critérios para justificar minha nota ao álbum, ela simplesmente surgiu no momento em que pensei em fazer essa resenha. Acho uma nota justa, pois enxergo essa obra como algo único e original.

26 maio, 2015

Cícero - A Praia (2015)



Nota: 7,5






Fernanda Rodrigues





Depois de quase dois anos sem apresentar nada novo (quase o mesmo tempo entre o primeiro e o segundo álbum), Cícero finalmente volta, agora com o lançamento de A Praia. Um disco que, sinceramente, parece aquele irmão mais novo que quer imitar algumas coisas que o irmão mais velho fez e deu certo, bebendo às vezes da mesma fonte que o irmão do meio. Não que isso seja necessariamente algo ruim ou bom, é apenas um fato.

Para começar, a primeira faixa do álbum já é a continuação da última do segundo, Sábado, como o próprio nome “Frevo Por Acaso nº 2” já diz – realmente, se você for ouvir os dois discos um atrás do outro, parece que a mesma música voltou a tocar. Da mesma forma, “Cecília & a Máquina” retoma a personagem de “Cecília e os Balões”, só que agora incrementada com a voz de Luiza Mayall, mas sempre representando a pausa do álbum para um momento mais calmo e delicado. Não sei dizer exatamente o que Cícero pretendeu com esse último lançamento, mas na certa ele quis (re)elaborar o sucesso de Canções de Apartamento, apenas de um jeito um pouco menos nostálgico e melancólico.

É como se, antes do seu primeiro disco, Ciço tivesse levado um fora, se revoltado, chorado, sofrido, sentido saudade, achado que nunca mais ia superar aquele caso de amor que acabou, mas, de repente, assim do nada, encontrou alguém que tem tudo a ver com ele. Se antes, lá no início, com “Açúcar ou Adoçante?”, ele estava mais para “Entra pra ver/ Como você deixou o lugar/ E o tempo que levou pra arrumar aquela gaveta”, em “Terminal Alvorada”, tem um tempo que ele já não sabe o que é saudade. É como se ele tivesse se apaixonado e encontrado a pessoa certa, porque, embora as bases entre as músicas dos álbuns estejam parecidas, os versos estão mais felizes e amorosos, menos saudosistas e ressentidos. Novamente, é o cantor nos deixando saber um pouco da história da sua vida.

E por falar nisso, é bom lembrar que Cícero deixou sua carreira de advogado para tentar a sorte na música e parece que é isso que ele lembra logo de cara nos primeiros versos de “Frevo Por Acaso nº 2”: “Papeis, documentos/ Velhas formas de comportamento/ Na rotina de sol e cimento, amanhecemos”. No mesmo caminho, a gente percebe também o mesmo estilo de referência em “Soneto de Santa Cruz”, que carrega no título o nome do bairro em que o cantor cresceu. Cícero continua, claramente, apostando no que deu certo no seu primeiro álbum: compartilhar com os fãs sua rotina, sua vida, sua biografia.

Tudo bem, vocês podem estar pensando “tá mas o segundo álbum? E Sábado? Ele não se inspirou em nada?”. Olha, foi até bom que as influências do segundo disco não tenham ido fortes nesse terceiro, porque Sábado foi meio decepcionante para quem já conhecia o cantor do primeiro álbum. Ficou um som experimental demais, meio fraco, que foi forte alvo de críticas pela maior parte das pessoas que o vinham acompanhando. Claro que nós não sabemos se a intenção de Cícero não foi justamente fazer um álbum mais experimental, mas, ao que parece, se o objetivo realmente era esse, ele não alegrou muito a torcida.

Por isso que a gente vê muito mais de Canções de Apartamento em A Praia. As melhores músicas do álbum são aquelas que lembram as do primeiro disco, como “De Passagem” e “Camomila”, que apresentam os mesmo versos repetitivos empregados já em “Ponto Cego” anteriormente. O sentido da música continua prático, direto e objetivo, sem forçar muito o ouvinte a parar para pensar “bah, mas o que ele quis dizer aqui?”. E isso não é ruim. Muito pelo contrário, às vezes o que a gente mais quer é um álbum que seja direto e diga o que a gente quer ouvir mesmo, de uma maneira fácil e descontraída.


Em outras palavras, e já para finalizar, Cícero continua o mesmo (talvez até mais do que o necessário), mas isso significa também que a qualidade das músicas continua boa. Alegrou quem queria a volta daquela promessa do MPB que apareceu em 2011, ainda meio tímida, nos convidando para entrar em seu apartamento (dá uma olhadinha na review do primeiro álbum -> aqui), mas que agora já nos leva para um passeio na praia, mais feliz, menos triste com o coração, como se um verãozinho tivesse chegado para aquecer seus sentimentos. O bom e velho Ciço came back.